Crônicas · Recanto das Letras

De meninos e pássaros (Republicação)

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Acordou apressado. Apressado também tomou seu café. Tinha nove anos: a idade em que se faz tudo correndo. Pressa de viver! Na cabeça um só pensamento: estilingue, escadarias, árvores e pássaros. Tinha feito sua arma dos sonhos pela primeira vez. Não era perfeita, teve que se virar com borracha de câmara duma bicicleta velha, imprestável. Não foi fácil achar a forquilha resistente: muitos tocos, mas quase todos inúteis. A cama das pedras construiu de um pedaço de bermuda velha. Pra não levantar suspeitas, desenvolvera a arma escondido nos barrancos do sítio. Estava pronta. Já a havia usado nos dois dias anteriores. Sempre a deixara escondida no meio das azaleias no final de uma passarela que ninguém usava.

Naquele dia, sua mãe estranhou a afobação. – Caaalmaaa…, menino! O mundo não acaba hoje! – Mas, afinal, cedeu à juventude. Quem pode com ela, pensou. Esgueirou-se pela mesa e correu para a passarela, o menino. Encontrou sua arma intacta, cheia ainda do banho do sereno; gelada. Do lado, pedras numa sacolinha. Minúsculas e mortais. Selecionadas. No dia anterior passou horas perseguindo beija-flores. Chegou a pensar em ter acertado algum. Mas, como não viu nenhum caído, achou que foi de raspão. Os pardais e tico-ticos eram os preferidos. Não eram muito rápidos e ficavam sempre em galhos baixos.

Praticou um pouco com latas velhas, aperfeiçoando a mira. Estava convencido de que tinha uma mira muito ruim. Definitivamente, não acertava-os, mesmo a curtas distâncias. Nesse dia sentiu-se confiante. Acertara muitas latas e de vários ângulos difíceis, a distâncias até razoáveis. Começou a procura. Concentrando-se para ouvir os pios. Queria os grandes, mas eles iam tão alto que era impossível a pedrada alcançá-los com força.

Perseguiu vários. Caiu. Quebrou os chinelos porcos de poeira suada. Foi descalço mesmo, transpirando raiva. Seria pedir muito acertar ao menos um? O avicida estava perplexo, ansioso. Vou aos mais fáceis, pensou. Não demorou a encontrar pardais e tico-ticos. As pedras voavam em todas as direções. Se desenhassem no ar, haveria teias gigantescas. Raspava um, tirava fina d’outro. Que mira de bosta! – gritou. Mas eis que a um tico-tico uma das últimas pedras selecionadas atinge. Seu coração, de repente, gela!

Vê que o pássaro se debateu. Passou a voar baixo, por várias vezes tocando o chão. Pula em várias direções, desorientado. O menino corre atrás, tentando pegá-lo e determinar o estrago. Mas algo se rompe em seu ser. A ansiedade começa a dar lugar ao mau presságio. Sente-se rapidamente triste. Muito triste. Não consegue se aproximar o suficiente para ver qual fora a lesão. Afinal, com pouquíssima coragem, tremendo, aproxima-se.

Pega o pequeno pássaro. Eis que o presságio dá lugar ao desespero. Pela primeira vez se dá conta de sua covardia perversa. De todas as outras vezes que atingira os pequenos pássaros, em nenhuma delas havia visto qualquer resultado que o impelisse a parar. Mas com este foi impossível. O pequeno fragmento de pedra atingiu ao minúsculo olho da ave. O direito. O olho está completamente vermelho de sangue, não tem mais nada, só um borrão vermelho. O menino solta um grito de compaixão triste. Dói-lhe na alma.

Fica petrificado. Não tem a menor ideia do que fazer. Sabe que foi longe demais. Olhando o pequenino tico-tico tem a impressão de que este lhe pede ajuda, desesperadamente. Tudo o que consegue é soltá-lo. A pequena ave cambaleia como um bêbado, sem direção e sem alcançar suas alturas que antes eram automáticas. Bate-se e encolhe-se a um canto. Parece estar esperando passar a calamidade para voltar a voar, como quando alguém acorda de um pesadelo.

Mas não adianta. A dor só falta fazer o pássaro chorar com o único olho que restou. O menino começa a chorar numa mistura de sentimentos. Desespera-se. Sonha por um instante que tudo aquilo não é real. Vai até o pássaro novamente. Chega a uma conclusão assustadora: sacrifício! Que pode uma ave que está praticamente cega, com dor insuportável e que não voará mais? Pensa que o pedido de compaixão é exatamente esse: Mate-me! O menino se apoia a uma árvore. Reflete por instantes que parecem durar muito, mas são segundos. – Se eu matar, para de sofrer. Mas Tenho coragem?

Executa o ato com tanta dificuldade que, junto com a ave, algo morre dentro dele. Detalhes? Nem o narrador consegue… Chora copiosamente. Nunca se sentiu tão triste e monstruoso. Chuta com fúria o estilingue, arma tão amada. Enterra o pássaro ali mesmo. Corre ao seu quarto. Entra correndo e ajoelha-se. Pede a Deus, com toda a sinceridade que pode, arrependido, para lhe perdoar. Sente-se perdoado. E a morte daquele matou sua maldade.

Publicado Originalmente no Recanto das Letras em: 25/08/2014
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3 comentários em “De meninos e pássaros (Republicação)

  1. Nunca entendi essa mania de meninos. Lindo texto, bom seria se todos os meninos sentissem isso. Por falar nisso, psicopatas sempre começam a machucar e matar animais na infância, são sempre cruéis. A probabilidade de crianças assim virem a ser, é grande. Todo psicopata já foi uma criança perversa, mas nem toda criança perversa será psicopata .

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