Crônicas · Recanto das Letras

Querida C. (Republicação)

Querida C. Sei que provavelmente você nunca lerá essa minha carta. Se, ainda assim, um dia a ler, poderá se perguntar o motivo de se escrever sem esperança de que você lesse. Realmente, isso é uma questão difícil de responder. Talvez eu escreva simplesmente por ainda nutrir a mínima esperança, lá, bem no fundo, de que você um dia a leia. Ou pode ser que eu queira apenas externar o que, dentro de mim, ainda vive como uma lembrança que incomoda. Quem sabe se colocando pra fora, eu possa me livrar da lembrança incômoda? Mas acho que a melhor explicação pra isso é que eu goste de perder meu tempo escrevendo e lendo do que vendo notícias bobocas ou trágicas pelos subúrbios dessa rede nociva. Ainda que ninguém leia esses escritos, principalmente você.

Há mais de 14 anos que te conheci e, aproximadamente, mais de 12 que não te vejo. Não sei se você se lembra melhor que eu daquele exato momento em que nos conhecemos. Das formalidades e cumprimentos quase nunca me lembro. Sei que nos conhecemos em algum momento. Creio que essas amnésias se deem por eu sempre ter me preocupado muito comigo mesmo e quase nunca prestar muita atenção no que acontecia ao meu redor, menos ainda com os outros. Só me lembrando de quando havia interesse de minha parte pelo que acontecia ao meu redor e me influenciava de alguma forma.

Contudo, nunca me esqueci do seu sorriso, de seus cabelos negros e extremamente lisos, da sua estatura pequena; meiga e sensível, do seu modo de andar tímido e seu olhar introspectivo, da sua virgem boca recebendo as primeiras camadas de batom; do seu início de vaidade ingênua e fora de moda, despretensiosa por acaso, mas marcando seu início no mundo feminino, atarefado com pós, cremes e multiplicidade de aromas, odores e tentativas sucessivas, quase sempre sem sucesso, de tornar o que era bonito por natureza mais bonito por artifícios maquiadores e vaidosos.

Mas eu era muito orgulhoso e cretino para notar sua beleza extrema, com ou sem artifícios. Estava muito ocupado sendo um narciso. No momento exato que você entrou na minha realidade, eu não pensava que você era mais do que uma de minhas muitas posses que eu teria durante a vida. Digo isso, é claro, com extremo desgosto. As idades de 13 a 17 são totalmente idiotas e superficiais. A pré descoberta da existência nesse período tornou-me um completo palhaço, cheio de preconceitos e ideias mesquinhas acerca dos outros e uma incrível adoração por si mesmo.

De verdade, eu nunca quis assumir qualquer tipo de relacionamento com você que não fosse o escondido de todos. De verdade também, eu não sei se isso significava que eu tinha vergonha de você ou de mim ou dos outros. De fato, eu tinha algum tipo de vergonha confusa. Eu nunca notei isso em você. Hoje reparo: você não tinha vergonha nem de si e nem de mim, talvez dos outros. O que a torna superior em tudo a mim. Você queria andar de mãos dadas comigo, dizer ao mundo que você amava, que alguém lhe amava. Pouco importando se isso escandalizasse quem quer que fosse. Eu só andava de mãos dadas com você nos escuros e descampados. Em outros ambientes eu praticamente a ignorava.

Surpreendeu-me você não deixar de me querer, mesmo eu sendo esse típico idiota. Sofrendo de claustrofobia pública. Talvez você soubesse que eu um dia iria perceber que era um idiota, tivesse compaixão e esperança por mim. Afinal, tenho certeza que você era mais madura que eu. Ou talvez você fosse tão frágil que precisasse da companhia até mesmo de um idiota. Mas não gostaria de pensar isso de você, embora faça sentido.

Certa vez, meu irmão mais velho nos viu juntos. Eu senti uma extrema vergonha, mas ao mesmo tempo percebi que poderia me gabar de estar saindo com uma garota linda. Eu tive a capacidade de entrar com você no quintal e não apresentá-la a ninguém. Nem mesmo a convidei para entrar. O importante era que alguém me visse. Pra depois me elogiar pela conquista. Eu não tinha interesse pelo que você quisesse ver. Repito, digo isso para demonstrar a minha ignorância.

Fomos para um banquinho que ficava de frente ao rio, debaixo de um pé de fruta, afastado de minha casa. Lá conversamos, nos beijamos pela primeira vez e, ao chegar perto de você, senti seu cheiro. Lembro disso como se fosse hoje. Não sei quem falou, se eu ou você. Ou se depois constatei isso sozinho. A lembrança de como isso ocorreu sumiu completamente. Sei que você tinha cheiro de fumaça. Não sei por que padrão de beleza eu tinha por supremo, mas, quando o sol bateu em sua face, seu batom vermelho sangue me exasperou. Achei aquilo ridículo e fiquei com vontade de dizer a você que não usasse batom. Na minha cretinice é bem provável que eu tenha até mesmo dito isso.

O cheiro de fumaça era por causa do fogão de lenha onde sua família cozinhava, ou por causa de se passar suas roupas com ferro em brasas. Coisa anacrônica até mesmo naquela época. Não lembro ao certo quais das duas coisas provocavam esse cheiro em suas roupas e pele, sei que poderiam até mesmo ser as duas. Nem preciso te dizer que isso também me provocava asco. Não sei de que manual eu ouvi que toda mulher deveria expelir fragrância de rosas. Talvez de alguns livros românticos ruins. Aquilo que me provocou uma espécie de nojo, hoje me faz lembrar de você com nostalgia, toda vez que sinto esse cheiro em algum lugar, melhor que o de rosas. O cheiro da fumaça faz com que seu rosto em minhas lembranças fique esfumaçado. Talvez isso seja a recompensa pelos meus sentimentos idiotizados do adolescente imbecil.

Constatei depois desse encontro que você era pobre. Na minha mente infantil e preconceituosa (pois eu também era muito pobre), isso foi considerado um crime cometido por você. Depois desse encontro, lembro-me de passar a evitá-la a qualquer custo. Demorou pra que você assimilasse. Você pensava como uma pessoa normal. Não sabia que eu era um imbecil, provavelmente. Continuou me olhando, esperando, sempre se aproximando, esperando a retomada dos encontros e seu natural desenvolvimento, quando eu já estava de partida para ignorâncias maiores. E queria mesmo que você até se mudasse, para evitar encontrá-la e ter de dissimular meu desinteresse.

Depois disso, pouco a pouco nos desencontramos. Não me lembro se você mudou, ou se eu me afastei tanto de você que nem mais notei sua existência. Sei que me lembro de tudo isso com extremo desgosto.

Por isso confesso a você nesse escrito: tudo o que eu tinha era medo do que os outros iriam dizer quando me vissem namorando alguém que exalava cheiro de fumaça e não sabia usar batom, muito menos se vestir. Essa estranha obsessão de agir, sempre nos moldes para impressionar a sociedade, me perseguiu por muitos anos. Prejudicando-me em todos os aspectos possíveis e imagináveis da minha vida. Até o dia em que percebi que a sociedade era a própria vergonha quase sempre. Nesse momento passei a ter vergonha de ter tido vergonha.

Senti-me péssimo por todas as coisas que fiz conforme as aparências. Muito mais quando me lembro de você. Peço-te perdão. Sei que nunca vou recebê-lo, mesmo assim peço. Saiba que não foi você que perdeu minha companhia. Pelo contrário, você se livrou de um energúmeno. Eu é que perdi a sua. De sentir o cheiro que as brasas produziam em contato com sua pele macia e suas roupas possíveis. O gosto do batom deslocado de sua boca, por mais tempo. Seus risos e sorrisos, suas confidências, os desejos da sua meiguice. A sua timidez reservada, com cadernos no peito. Perdi você e o que havia em você.

Mas você me fez ganhar. Hoje sei: uma mulher pode exalar cheiro de fumaça e não saber usar batom, e mesmo assim continuar sendo de maneira impressionante: Linda e Mulher. E que, ter vergonha pela sociedade vergonhosa é vergonhoso.

Obrigado C.

Publicado originalmente no Recanto das Letras em: 13/08/2014
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11 comentários em “Querida C. (Republicação)

    1. Eu acho que não era não. Bem, considerando o meu estilo, união de Dostoievski com Ari Toledo misturado com este que fala, pode ser que sempre tudo acabe virando troça. kkk.

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  1. Bom, cheiro de fumaça ou bafo acredito que o personagem não amou C tanto assim, pq quem ama luta e cuida. Deveria cuidar e com amor dar-lhe quem sabe até um amaciante para por nas roupas. Ou dizer-lhe (caso o problema fosse bafo ,e também ajuda-la ) Isso se chama amor o resto é atração fisica e paixonites agudas. Por falar nisso houve uma época em que eu tinha “bafo” não por falta de higiene mas por cálculos na garganta e não sabia como cuidar até ir ao médico e fazer uma cirurgia de amígdalas , após muito tempo sofrendo e percebendo a troça de quem não sabe o que é amar e cuidar, pq o melhor mesmo é tirar sarro das pessoas ao invés de ter misericórdia !

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        1. Olha, acho que é uma ótima ideia. Neste caso, mais que uma resposta de C. Eu gostaria de uma de D. como se C. fora. Ah, mas eu iria ficar feliz e muito mais ansioso que você, certamente. (amigo chato, né). É brincadeira, mas se fizer, eu levarei a sério. Beijos, sem palavras para agradecer suas leituras. ❤

          Curtido por 1 pessoa

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