Recanto das Letras · Resenha

Resenha de “Sal”, de Leticia Wierzchowski (Republicação)

 

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Comparativamente, leio muito mais romances estrangeiros que nacionais. Isso não é uma escolha, mas algo que acontece naturalmente. Muitas vezes, admito, fruto de preconceito para com a literatura nacional que, considerando sua história, em nada perde para quaisquer outras. Certamente temos do que nos elogiar. Por esse motivo, decidi dedicar uma parte maior de meu tempo (escasso) para ler autores nacionais. Clássicos e contemporâneos. Em uma dessas garimpagens, optei por “Sal”, de Leticia Wierschowski.

Leticia é uma escritora gaúcha, nascida em 4 de junho de 1972. Escreveu até o momento 14 romances. Sal é o décimo terceiro. Também é autora de alguns títulos infantis e uma publicação de Contos e Crônicas de 1998, mesmo ano de seu romance de estréia “O anjo e o Resto de nós”. Contudo, é nacionalmente conhecida pela obra “A casa das Sete Mulheres”, adaptada para a TV e exibida em 2003 na Rede Globo, sob título homônimo. Obra que nem li ou assisti.

Sal é o primeiro romance nacional publicado pela editora Intrínseca, em 2013. Talvez, representando um abrir de portas aos autores nacionais. Ambientado na ilha fictícia de La Duiva. A história gira em torno da saga da família Godoy que, após diversas viagens, se estabelece nessa ilha. A autora acompanha a terceira geração dos Godoy. Que virá de Cecília.

A Jovem Cecília, órfã após a morte da mãe, é acolhida na família Godoy como empregada. Surge, então, um romance entre ela e Ivan, filho único de Doña Alba e Don Evandro. A contragosto da matriarca. Mulher pintada, ou melhor, tecida como extremamente amarga. Tecida porque a autora faz constante paralelo pelas mãos de Cecília com o tecer do tapete, que cobrirá os 365 degraus do farol de La Duiva, e o fluir das vidas de seus filhos e demais personagens. Dando a cada um uma cor, que pretende explicar seus destinos e personalidades. Além de fazer trazer na memória, a sua companheira de solidão, seus saudosismos.

Em resumo, Cecília e Ivan se casam e têm seis filhos. Três meninos e três meninas, pela ordem: Lucas, Julieta, Orfeu, Eva e Flora, gêmeas, e Tiberius. Sozinha, após a morte de Ivan e a saída tempestuosa de todos os seus filhos de La Duiva, Cecília vive de lembranças, das memórias doutros tempos e da saudade dos filhos. Sua tristeza é também, de certo modo, a tristeza do farol, que aqui é personificado. Como que sentindo a ausência de Ivan, o farol enlouquece, sendo responsável por diversos desastres marítimos próximos à La Duiva, por causa de seu funcionamento inadequado.

Ela, Cecília, decide, então, desfazer-se do cuidado do farol. Escreve para a capitania dos portos solicitando outra pessoa para tomar conta do farol. O que não é uma decisão fácil, pois há uma ligação íntima da família com esse farol. Começa a tricotar. Objetiva contar toda a história da família, entre as lembranças, pelas cores de um tapete gigante, que cobrirá os 365 degraus do farol. O que não deixa de ser uma referência ao tempo, ao passado que não voltará. Cada cor do tapete representando uma pessoa, uma história, nuances da vida pelo tom.

A narração segue o ritmo dessa construção proposta. Ora primeira, ora terceira pessoas. Diversos personagens contando suas histórias, sua visão acerca dos acontecimentos anteriores à solidão de Cecília, trágicos ou não. Justificativas, pontos de vista e, em meio a isso, fatos. Amálgama de vidas. Muitas vezes sem linearidade. Mais parecido com um quebra-cabeça. Mas com certo protagonismo inicial à voz de Flora.

Flora, uma das gêmeas de Cecília, com personalidade mais introvertida, pacata, em oposição total ao furacão Eva, que ela chama Lilith, numa referência à lenda da “primeira” mulher de Adão. Flora é uma leitora voraz. E começa a escrever seu primeiro e único romance, com traços biográficos da família, mas, a rigor, uma ficção. Pelo menos é o que Flora pensava, até as páginas começarem a saltar da ficção à realidade. Isso começa a ocorrer quando o livro que Flora escrevera cai nas mãos de Julius Templeman. Um professor inglês que sairá da Inglaterra, tal é o impacto que a obra lhe causa, para ir conhecer a escritora em La Duiva (sim, só a ilha é fictícia, a geografia restante é a nossa). Com a chegada de Julius, tudo tende a mudar.

Enfim, toda a construção inicial pode ser descrita como “com um bom potencial”. Se, e somente se, a autora não me decepcionasse quase que completamente depois de boas páginas.

O talento para a escrita por parte da autora é inegável. Uma prosa poética com ritmo calculado e sóbria fluidez. É gostoso e fácil de lê-la. É, muitas vezes, belo. Contudo, toda essa explosão de talento viçoso não salva da frustração com a trama. Li livros mal-escritos; porcamente escritos que, no entanto, tinham excelentes estórias. Entre um e outro, fico com o péssimo escritor que tem ótimas estórias. Afinal, o péssimo escritor ainda pode ter um bom editor, mas nenhum editor consegue consertar falha na estrutura do romance. Explico.

Leio porque gosto de literatura, mas ela não está acima das minhas convicções. A autora quis, talvez, apenas emancipar das sombras o romance homossexual, dando-lhe protagonismo praticamente absoluto. Forjando nele uma dose com todo o romantismo que poderia e gostaria. Pode ter quisto também inovar. Ou correr atrás do establishment midiático ou do ativismo gay. Ou simplesmente contado o que lhe veio. Quem poderá saber? A mim, agora, isso pouco interessa. Se por inspiração, ideologia ou o que quer que seja. O fato é: não gostei e não gosto. E, se comprei, fiz porque tenho costume de não ler resenhas antes da obra, para ter uma opinião sem condicionamentos de leitores que não são eu. Se houvesse visto algo do tipo antes, talvez não comprasse.

Mas esse não é o único problema. A obra é dividida em três partes. O que ocorre é que praticamente todos os outros personagens com suas possibilidades, criadas por ela mesma, parecem ter sido esquecidos pela autora na maior parte da obra. Que concentra o que resta do que escolheu como foco em chispas do soldador. Na parte final os retoma enfim, mas é quase com pressa. Matando-os, desiludindo-os ou fazendo-os voltar. São sombras. Sempre partículas ínfimas do círculo. Ciscos no ar. O que restou da bomba atômica.

Ainda assim, mesmo não gostando do foco que a autora determinou e seguiu, não é de todo ruim. Valeu como tentativa, como descoberta. Como estímulo para ler mais nacionais. Leticia é uma grande escritora; ainda que com frases rebuscadas, algumas redundâncias, comparações poetizadas demais, vale a pena dar à sua escrita um pouco de tempo. A frustração é evidente com os caminhos encontrados na obra, mas não desisti da autora. Pretendo ler outros de seus romances para fundamentar melhor meu escrutínio. No geral, em uma escala de 0 a 5, daria um 3. Afinal, escrever um romance superlativo nunca foi tarefa fácil. E sempre haverá leitores desagradados. É o que acontece com quem se lança no gigantesco mar da publicação. Além disso, é o primeiro nacional de uma grande editora. E isso por si só deve ser elogiado.

Publicado originalmente no Recanto das Letras em: 09/09/2015
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