Contos · Recanto das Letras

O Motorista na Estrada para o Inferno (Republicação)

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Parecia morto. Acordou com o típico barulho infernal do seu despertador que era tão velho quanto ele. Levantou-se praguejando por ter esquecido de deixa-lo próxima à cama. Pois tinha mania de coloca-lo para gritar alguns minutos antes do necessário. No intuito de contemplar o teto enquanto sai do torpor do sono e sua mente clareia. Com uma falta de paciência habitual, calou-o a pancadas. Torcia para que não funcionasse nunca mais. Era um Domingo de Agosto. 5:33 hrs. da madrugada. Lembrou-se com desânimo do motivo de ter que acordar tão cedo. Trabalho. Joaquim, seu colega de trabalho, alcoólatra contumaz, havia se acidentado, forçando-o a fazer sua escala até que a empresa arranjasse um substituto. O que ele duvidava que fosse acontecer logo. Da última vez, ficou em sobrecarga por nada menos que seis meses.

Após se desfazer de suas contemplações e de suas obrigações fisiológicas, higiênicas do pós-sono, deu uma boa olhada no espelho e mais uma vez se convenceu do que ontem achara impossível acontecer: estava ainda mais feio, mais calvo e velho. Mas isso era todo o dia. Mesmo assim não cansava de se irritar, também todo o dia. Falou um palavrão entre dentes por não conseguir pentear um dos rareados tufos de cabelo que insistia em ficar arrepiado, fazendo-o ficar mais feio do que já era. Absolutamente ridículo! Desistiu. Foi comer algo. Abriu a geladeira e ficou observando, meio sorumbático, não tinha quase nada nela. Restos de coisas que não ousava tocar quiçá comer. Mesmo assim, arcou-se três vezes para verificar o inverificável. Até dar-se conta de que o seu desjejum só seria possível na padaria. Esquecera de comprar pela segunda semana no mês qualquer coisa para se alimentar. Grande parte do seu salário ficava em restaurantes que mais pareciam bares e na padaria próxima à sua casa.

Bons tempos quando tinha mulher. Ele chamava assim o que em seu dicionário significou sempre escrava. Sexual e do lar. Tinha tido três. A terceira era vinte anos mais nova. “Uma beleza!” dizia aos colegas. Só que essa beleza logo se cansou dele. Ninguém sabe como chegou a estar com ele. Mas talvez isso se explique por ser extremamente preguiçosa, sempre procurando um idiota para sustenta-la. Passava dias sem fazer nada, até que se cansou de fazer nada com ele para ir fazer nada com um cobrador. Dessa vez ela aprendeu e o imitou. O cobrador era dez anos mais novo que ela. Fez isso depois de encher seus cartões com todo tipo de dividas e sacar toda a sua economia de seis anos, por que o velho – que era idiota – (nisso ela não errou) e ele mesmo assumia aos seus amigos, achou por bem deixar o dinheiro em conta conjunta. Uma beleza de idiota!

A segunda era uma professora aposentada, Rosângela. Amiga íntima da primeira e única que lhe dera um filho, Jorge, que morava no Canadá, e vinha visitá-lo ano sim, ano não. Rosângela cuidou de seu luto, ajudou-o muito quando perdeu Cláudia; sua primeira esposa e único amor. Fora vítima de um câncer, que ceifou sua vida precocemente, aos 34 anos. Casou-se com Rose no sétimo ano de seu luto. O seu enorme erro. Ela era uma amiga e, por causa disso, agora não era nada. Não combinavam em nada. Ela entrou numa depressão extrema por causa de sua profissão. Irritadiça, assustada, impaciente e implicante. Até que ela mesma decidiu pela separação. – Antônio, se ficar mais um dia aqui com você, sua desorganização, esse senso de humor ridículo e esse conformismo com a pobreza, mato-o. Adeus!

Não ficou se lastimando e nem surpreso. Lastimava-se ter perdido a amiga e ganhado um problema chamado esposa. Desfazer-se dela na segunda condição era muito mais fácil que da primeira. Esta sim, uma lástima. Tanto que como esposo passou a provocá-la de todas as formas possíveis, agindo até contra a sua modéstia. Indo, inclusive, dormir sem tomar banho. Quando não dormia fora duas, três noites seguidas sem dar qualquer satisfação a mais que um telefonema bem sucinto: – Rô, vou ficar por aqui. A escala vai até às duas, tchau. Mas era agradecido a ela na condição anterior. Não fosse por ela, seu filho certamente teria se tornado um marginal. Mas ela cuidou do Jorge como se fosse seu. Até vê-lo formado com três línguas no currículo. O que o ajudou a se estabelecer no estrangeiro e ser bem sucedido por lá.

Chegou à empresa faltando dez para às sete, pontualmente. Depois do café reforçado na Pão de mel, sentiu-se revigorado. Sua primeira linha era às 07:00 hrs. Uma linha que detestava, porque era regra: todos, ou quase todos os piores tipos de bêbados das festanças de sábado iam desembocar nessa linha e nesse horário. Depois de doze anos fazendo esses percursos, conseguia mesmo adivinhar quais seriam os cachaceiros, vigilantes mal-humorados, mulheres de vida fácil ou difícil com olheiras monstruosas e borras de maquilagem mal feita ou desfeita que iriam entrar no seu “carro” dessa linha. Mas havia ainda outro fator que o irritava. A empresa separava os piores carros para essa linha. Velhos, velhíssimos. Sem manutenção, o que já o obrigara a ficar diversas vezes com a lata velha quebrada tendo que aguentar a presença daqueles vermes sociais por mais tempo que desejaria numa vida, e ainda suportar suas reclamações com odores pérfidos.

Regressou às dez para às 9:00 hrs. Em dez minutos teria que pegar a linha civilizada para a capital. Imaginava que a linha das 7:00 seria ruim, porém desta vez teve de tudo. Briga de casal, vômito e, por muito pouco, não saiu nas vias de fato com um rapaz que pulou a catraca e se recusara a sair. Tendo que se juntar a ele o cobrador e um vigilante para empurrar o cretino para fora. E, no fim, sabia que aquilo poderia lhe custar caro. Só depois de tudo feito lembrou-se que aquele rato era membro de ganguezinhas de maconheiros que atormentavam a região, e não hesitavam espancar até pais de família que os enfrentasse.

Quando parou na rodoviária para recolher os passageiros da civilização, deu um suspiro de alívio. Gente de verdade. Pensou na palavra passageiro e seu significado. – Que bobagem, essas pessoas conheço há anos. E sempre as estou levando de um lado a outro. Não são passageiros, são freqüentes. Começou a rir. Gostando de ter raciocinado tão bem. Ao mesmo tempo em que pensava estar ficando senil. Ou simplesmente idiota, mais ainda. Ou ambos. Rô tinha razão, seu humor era mesmo ridículo.

Seu olhar se deteve nas pessoas que passavam pela catraca e pagavam o cobrador. Notou um casal com longas tatuagens nos braços. Detestava pessoas tatuadas. A vontade que tinha era mandá-las ir tomar banho e esfregar aquilo com esponja de aço até sair tudo. Nem que arrancassem a pele junto. Sentia repulsa imensa. Tatuagem aos seus olhos era sujeira da pior espécie. Estava ainda fazendo careta quando viu Fatinha. Linda como sempre. Ela era a gentileza em pessoa, mas assim que os olhos de ambos se cruzaram no retrovisor, ela baixou os olhos, vergonhosa. Ele mais uma vez se lastimava. Balbuciando e sussurrando pragas contra si. Há um mês, havia confundido a gentileza de Fatinha; seu sorriso meigo, sua graça com paixão arrebatadora. Como poderia ser tão burro? Como uma mulher daquelas iria querer algo com um velho que tinha cara de múmia, emprego dos mais subalternos e extenuantes e um pé na cova? Tomou um fora de dar medo. Medo porque o que ele mais temia, aquilo que mais tinha pavor aconteceu: Ela ficou com dó. Pena.

Ao meio-dia, finalmente, havia vencido quase todo o seu turno. Mas não pôde ficar feliz. A escala estava feita para lhe dar ódio. Pausa até às 20:30 hrs. Depois, mais três linhas até chegar com o carro provavelmente às 02:00 hrs, se tivesse sorte. O que significava que quando já estivesse se acostumando ao descanso vespertino, teria que voltar ao trabalho. E o que era ruim ficou ainda pior quando viu que a última linha era aquela porcaria no fim do mundo que havia feito de manhã. Apelidada por todos como “estrada para o inferno”. De maneira alguma conotação injusta. Esse nome era um resumo da condição. Asfalto parcial. Buracos do tamanho da sua feiura. Escuridão total. Pouquíssimos passageiros (mas não pouco insuportáveis) na ida, nenhum na volta. Curvas sinuosas. Carros selecionados a dedo: os piores dos piores. E, o mais importante e diferente de estar nela de manhã, à noite era Assustador!

Tentou não pensar nisso. O supervisor da escala era um bruto, se reclamasse, só iria conseguir uma briga, e uma escala ainda pior na segunda. Esse bestalhão do supervisor jamais mudava a escala e vivia a dar ordens e mais ordens. Qualquer interferência no seu trabalho e estava feito, perseguição sistemática até alguém pedir demissão ou tentar esmurrá-lo, o que dava no mesmo, com o acréscimo da visita à delegacia.

20:20 hrs. Antônio se aproxima com desânimo apocalíptico à garagem. Pensa em tudo que poderia ter sido. Quantas oportunidades desperdiçadas por ter no comodismo a razão da sua vida. Uma vida que vista de longe parece com o voo de um filhote de pássaro, que entre uma árvore e outra se arremessa, mas a falta de coragem em ir ao destino aliada à falta de ânimo para voltar e começar de novo fazem com que fique no meio do caminho, equilibrando-se em suas asas frágeis com o tombo iminente, cessadas as forças. Sente-se assim. Nem no chão nem topo, no ar. Prestes a cair.

22:50 hrs. O que ele vinha evitando pensar, prontamente o atinge. A linha final. Sua vontade: ir para casa, mandar todos à forra. Principalmente o supervisor. Que se virem! Mas não faz nada disso. Está velho demais para essas ousadias. Na verdade, sempre foi velho demais para arriscar desafiar a ordem que impõe. Aceita com tédio tudo o que o destroça. Faz tudo sem querer fazer. E espera o impacto da desgraça. Tal qual a Árvore esperando o incêndio. Resignação.

23:50 hrs. Está próximo do ponto final da ida. Há um rapaz no primeiro banco, ao seu lado. Gosta dele. Conhece-o desde pequeno. Renato fala pouco. Uma companhia que não é companhia. Nesse dia está mais falante. Não o via há alguns meses. Estranhamente, só falava de mortos. – Sabe quem morreu, seu Antônio? Mais estranhamente: toda vez que falava sobre quem deixou a vida, Antônio pensa ver um sorriso contido nos cantos da boca de Renato. Pressiona os olhos, acredita que é o excesso de trabalho e as altas horas que estão fazendo-o ver coisas.

00:00 Hrs. Ponto final. Fato raro: assim que Renato desce, entra um passageiro. Incomum alguém ir à cidade nesses horários. Sabe que Fernando, o cobrador dessa última corrida, já finalizou seu caixa. Deixa o passageiro entrar por onde Renato saíra. Incomoda-se por violar a regra. Mas Antônio segue as regras impostas como as quebra quando também há imposição. Esse parece não querer conversa. Fernando se senta no banco antes ocupado por Renato. Pelo hábito, todo o cobrador faz isso na última corrida. Principalmente pelo risco do motorista dormir ao volante. Especialmente, Antônio. Que quase se matou diversas vezes dirigindo e cochilando. O passageiro está no meio, cabeça baixa, todo agasalhado, com toca e ainda um boné. Antônio dá a volta e segue para terminar seu turno. Breu total. Será quase um milagre passar algum motorista nesse horário naquela estrada.

Antônio não resiste, e fala da impressão de Renato estar rindo quando conversava com ele sobre quem morreu a Fernando. Em princípio, Fernando não entende. Que ele se lembre, não viu o motorista conversando com ninguém. Levaram no máximo uns dez passageiros. E praticamente todos cochilavam. Fernando diz isso a ele.

– Como não? Acabou de sair no ponto final antes desse rapaz entrar. O cobrador estranha ainda mais.

– Que Renato é esse, Tonho?

– O da Gláucia, filho da Gláucia que trabalha naquela Olaria dos Três Lagos. – Grita.

– Não pode ser! Renatinho? Ele morreu há duas semanas. Afogado na represa.

Silêncio.

Antônio fica sem ação, sem palavra. Não consegue articular nada enquanto o cobrador olha para ele como se estivesse louco. O passageiro sai do seu banco em direção aos dois na frente. Diz que vai parar na próximo ponto. Está suando, Antônio consegue perceber, apesar do frio. Chegando à parada, com a porta já aberta, o passageiro tira a mão que estava no bolso da jaqueta. Dela não sai só a mão, mas a mão e uma arma. Quatro disparos são dados, três atingem Antônio. Um no peito, outro na barriga, e o último de raspão na cabeça. O quarto estilhaçou o vidro do ônibus.

Os rebeldes. Era esse o nome da gangue a que pertencia o marginal expulso do carro por Antônio pela manhã. Tudo combinado. Esse rapaz queria entrar para a gangue. Foi desafiado a cometer um crime. O crime deu em Antônio pela conveniência, facilidade e o ódio. Tinha expulsado o líder dos rebeldes. Caído. No colo do cobrador que o arrastara para o corredor. Antônio olhou para o fundo do carro, já no desespero dos últimos suspiros e viu Renato. Sorrindo. Mas agora um sorriso total. Não havia dúvidas. Depois de dois minutos: Antônio estava morto.

Publicado originalmente no Recanto das Letras em: 29/09/2015
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2 comentários em “O Motorista na Estrada para o Inferno (Republicação)

  1. “Profissão das mais subalternas”? Kkkkkk meu marido é motorista viu?Tadinho.
    Bizarro isso ai em? Recentemente Deus recolheu meu pai e não estávamos esperando pq ele tava bem, apenas uma infecção urinária e foi descoberto uma massa no intestino e morreu de repente. O interessante foi que as 4 da manhã acordei com um barulho da corrente no portão e olhei da janela que é de vidro, fiquei uns dois minutos olhando e não era ninguém. As sete da manha soube que ele havia morrido naquele horário. Ele gostava muito de mim , ele tinha muitos filhos mas ele amava a mim que era adotada. E uma das minhas filhas que faz enfermagem cuidou dele até o fim . Os dois se amavam muito.
    Gostei do conto. Renatinho é o nome do meu primeiro namorado rsrsr

    Curtido por 1 pessoa

    1. Que pena, lamento pelo seu pai! Meus sentimentos. Eu acredito nisso que você falou, tipo pressentimento. Já ouvi muitos relatos do tipo. Principalmente quando se é alguém muito próximo. Obrigado pela visita, querida Cris. Ótima semana.

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