Contos · Humor · Recanto das Letras

Herói, coisa nenhuma! (Republicação)

Acabara de sair do consultório do urologista. Exames de rotina. Talvez fosse um dos únicos homens da face da terra a fazer periodicamente tais exames. Dirigiu-se até o carro estacionado pelo seu motorista, Juvenal. Homem que fizera faculdade esperando com o diploma virar rei, mas que fora obrigado a se tornar motorista particular por causa da crise, e também porque sua faculdade fora acusada de ter no núcleo de professores, totais analfabetos. E teve que se virar com o cargo de Motorista Particular de um abastado que jamais frequentou universidade na vida. O consultado entrou no carro que o aguardava para dali levá-lo ao Aeroporto Tom Jobim. Chuck Fitzgerald da Silva, homem prático, ateu convicto não militante mas desbocado, filho de pais abastados, com uma herança que nem sabia calcular, e nem se importava com isso. Mas era avarento ao extremo com outros. Nunca doara um real para causa alguma. E atrasava os salários de todos os funcionários para que se humilhassem a ele. Não suportava esse nome que lhe deram. Mas pior era ser chamado de “da Silva”. O que, por fim, habituou-se.

– Dia quente, hoje, seu da Silva. Puxou conversa o motorista.
– Quente mesmo é o inferno, se existisse.

Juvenal era seu motorista havia dois anos. Já tinha conhecimento de sobra para saber que o dia de da Silva não estava nada agradável. Como em todos os dias. E calou-se. Mas não adiantou.

– Pô, Juvenal, esta merda não anda não?
– Seu da Silva, aqui ta cheio de radar, vai dar multa na certa.
– Pois que dê, eu pago. E vai ponto pra mim. O carro é meu. Toca essa coisa, anda. Jumento!

Juvenal pisou fundo, assustado com os impropérios.

Nem um cumprimento ao chegar no Aeroporto e sair do carro. Apenas uma ameaça de da Silva.

– Se tomar multa na volta, eu vou saber e vai ser demitido por justa causa, imbecil!

E agora, leitor, sigo quem? Se você é socialista vai querer que eu siga o Juvenal, não. E que faça ser vingado, certo. Mas não. No mundo real isso não ocorre. Juvenal furou um cruzamento pela raiva e acabou esmagado por uma carreta. Morreu.

Chuck Fitzgerald da Silva fez todo o procedimento de praxe e decolou. Não sem antes praguejar contra balconistas, aeromoças, passageiros, querendo furar filas, e reclamar da demora do voo com gritos e chutes na sua mala. Ele não usou o jato particular nesse dia porque tinha discutido severamente com o seu piloto, saído às vias de fato, por causa de crenças desse piloto na reencarnação. Daí ficou sem ninguém para pilotar. E pior. Ninguém queria trabalhar pra ele por conta do seu temperamento. Sua fama era horrível em todos os cantos do país. Despenteou-se um pouco e machucou o dedão do pé. Mas nada tão grave quanto ter que aguentar um pobre na classe executiva a seu lado. Presenteado por uma rádio com tudo pago para ir assistir ao U2 na França.

O “bostinha”, assim nomeado por ele, era descarado, um vadiozinho. Importunou-o por algumas horas. Até que a Aeromoça, lindíssima diga-se de passagem, teve que intervir. Pois os dois já estavam às vias de fato. Quando ela ameaçou fazer voltar o Avião, calaram-se. O que resultou em ameaças tardias dos outros passageiros contra o casal. Recém-casados da poltrona.

Não demorou para haver fortes turbulências no avião. Incomuns. Da Silva viajara muito para saber que aquilo não estava nos moldes normais. Algo estava errado. O rockeiro bostinha começou a clamar a tudo. Nesse momento, Chuck Fitzgerald da Silva impacientou-se.

– Cala a boca, animal. Deus não existe. E se existisse você estava ferrado do mesmo jeito. Que eu saiba não está viajando pra cidade santa ir agradecer. Quer ir pra cidade Luz para se meter em todo tipo de orgia. Pensa que não sei sobre francesas. Pois saiba, se morrer ainda vai pro inferno, imbecil! Seu ateísmo falou mais alto e fez sair lágrimas dos olhos do garoto. Agora soluçava. Chuck Fitzgerald da Silva ficou com dó.

Um estrondo absurdo soou no avião. E o som posterior era como assovios de multidões. Agora danou-se! Isso vai mesmo se esbagaçar, murmurou da Silva. Máscaras de oxigênio se jogaram nas caras de todos. Mas ninguém notou. Gritos e berros e uivos ecoaram por todos os lados. Luzes piscaram intermitentes e o avião jogava pessoas sem os cintos em todos as direções. Malas caiam nas cabeças das pessoas. Em poucos minutos, não mais que dois ou três, o avião chegaria ao mar. Oceano Índico. Não. Oceano Atlântico. Perdoem, eu não estudei muito bem física quântica.

Chuck olhou tudo isso e, com seu pragmatismo habitual, pensou: deve haver um bote e coletes salva-vidas. Vou caçar. Achar. E abrir a porta quando estiver próximo do mar, saltando ou sendo jogado. É a única chance. Deu socos e tapas no rockeiro bostinha. Precisamos achar… gritou. Achar o quê? Devolveu com grito de choro o jovem. Bote, burro! Bote e coletes, zé bronha.

Nota: ao leitor que achar esse tipo de diálogo um exagero e falta de respeito, deve repensar o que sabe sobre diálogos reais em situações críticas. Além disso, é impossível, por exemplo, uma criança de seis anos dizer aos seus papais. Papai e mamãe, é preponderante que eu seja iniciada em filosofia para que possa desempenhar atividades relevantes neste nosso século. Acredite, leitor, há escritores que escrevem esse tipo de diálogo. Isso não é ficção, é demência. Se você quer ler esse tipo de coisa, saia daqui. Senão, vejamos.

Por fim, a contragosto, o jovem tratou de se desfazer do cinto e ir junto com da Silva na ingrata tarefa. Mas conseguiram. Acharam bote e coletes. Amarraram tudo aos corpos e pela janela viam quanto o mar se aproximava. Chegando a uma distância razoável, não precisaram tentar abrir a porta. O que seria uma loucura, obviamente naquela pressão. Ela mesma como que por milagre voou. E eles foram sugados para fora.

Nota 2: Desculpa, leitor. Mas se você acha isso impossível, não sabe nada sobre nosso mundo. E depois, isso é um conto. Quando você assiste Rambo, Duro de Matar e Transformers não fica falando que é impossível, né?

Caíram feio. E Fitzgerald quebrou uma perna e um braço. O garoto quebrou as duas e os dois e algumas costelas a mais que Fitzgerald. Se não falei antes que Fitzgerald havia quebrado costelas na frase primeira, é porque esqueci. Mas antes de caírem, ocorreu outro fato espetacular. Eles puderam ver o avião caindo enquanto caíam. Em chamas e se desfazendo. Mas ainda bem que o avião caiu longe deles. Quando voltaram da profundidade do mar, à superfície. Puxados pelo bote e coletes salva-vidas. O garoto estava morrendo afogado. Pelo desespero e por estar todo quebrado. Apesar de Chuck estar também quebrado, fez um esforço grande com a perna boa e o braço para desamarrar o bote deles e içar o garoto acima. Nesse momento de extrema força, se borrou por todos os orifícios que se borram. E xingou muito. Só não mais porque entrou água na sua goela e o fez calar-se.

Para ter de salvar o garoto, teve de abrir mão do bote e deixar o garoto deitado nele. Gemendo que nem dançarina de boate da vida depois da boate. Mas isso foi péssimo para Chuck Fitzgerald da Silva. Uma onda veio e o levou. Provavelmente provocada pela avião que caíra e só chegara agora ali. Porque o mar estava calmo naquela noite e eu esqueci de falar esse detalhe em espaço apropriado anteriormente. O garoto e o bote sumiram e Fitzgerald ficou só e com muito esforço conseguiu se manter boiando com a cabeça para cima. Mas sabia que se não achasse logo algo para se apoiar, iria morrer. Não estava aguentando mais. Até que quase amanhecendo, e já cedendo do resto das forças, vislumbrou a porta do avião boiando e vindo em sua direção. E sem se dar conta. Gritou: Graças a Deus! Mas logo se arrependeu. Não acredito que falei isso. Nunca vou me perdoar.

Junto estava grudada uma mala na porta e cheia de chocolate e água. Arrependeu-se de ter-se arrependido do grito. Aquilo não era coincidência. Ficou assim alimentado e hidratado por duas semanas. Depois de enfrentar baleias, maremotos, monstros das epopeias, tubarões e até sereias que quase o mataram pensando que ele aguentava dar conta delas. Mas permaneceu vivo. Foi resgatado. E o garoto? O garoto foi resgatado no mesmo dia, quatro horas depois do avião cair por pescadores cubanos perdidos que depois se acharam por um helicóptero da marinha israelense. Ao saber disso pela imprensa, Chuck Fitzgerald da Silva ficou revoltado. Quando entrevistado, mesmo moribundo se recuperando, sendo chamado de herói por ter salvo o garoto, conclui com fúria, em sua sinceridade característica, numa entrevista ao vivo em que bilhões assistiam:

– Herói, coisa nenhuma! Se soubesse que ia ficar duas semanas ferrado e lascado no mar por ter cuidado de um bostinha daquele, tinha matado ele, comido seus órgãos e dado o resto aos tubarões.

Publicado originalmente no Recanto das Letras em: 19/11/2015

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