Contos · Recanto das Letras

Desilusão (Republicação)

Como pôde ser tão idiota. Confiando 30 anos de sua vida a uma traidora daquelas. Quatro filhos, uma vida de trabalho contínuo, sem sossego, sem descanso. Dia e noite procurando fazer o possível e o impossível àquela crápula. Acordou zonzo, revoltado, completamente desorientado.

Depois de passar o resto da tarde e a noite toda no bar; bebendo e jogando, foi dormir num hotel barato de quinta, que tinha cheiro de vômito e urina, pegou as chaves do seu carro, saiu às seis e meia em ponto. Dirigindo-se a mais um dia de trabalho entediante. Com aquele monte de imbecis da Prefeitura. Sua área era de fiscalização, que na verdade não existia, a não ser na época de confeccionar alvarás.
Ficava o dia todo documentando páginas e páginas em algum armário. Seu superior tinha a mania incessante de desorganizar pra depois organizar tudo novamente, um idiota! Não sabia exatamente o que esperar do seu último dia de vida. Tinha dormido muito pouco e mal, não conseguia tirar a imagem de sua esposa, Roberta, entregue nas mãos de um garotão 22 anos mais novo que ele. – Um filho da ..! Ela, uma …!

Lembrava-se de cada detalhe. Pela primeira vez em alguns anos conseguira sair quatro horas mais cedo da Prefeitura. Iria haver uma confraternização. Ele não quis participar, querendo fazer uma surpresa; sua esposa constantemente reclamava da rotina e da falta de tempo pra ficarem juntos. Sempre chegava cansado, detestava lidar com tantos papéis, chegava em casa e não relaxava. Fazia Sexo cada vez menos, e só gostava mesmo era de dormir e assistir seu Botafogo jogando. Ou receber a visita, nos finais de semana, de seu Filho mais velho Miguel, para conversar sobre tudo. Seus outros três filhos estudavam e moravam em repúblicas estudantis. Só iam à sua casa nos finais de ano.

Sentia a falta das brigas deles, quando crianças e adolescentes, embora detestasse acordar com o barulho do vídeo game na sala, até disso já sentia falta. Naquela semana pensou em mudar sua vida. Tinha uma poupança vultosa, iria entrar de férias dali a vinte dias e queria conhecer Paris com sua esposa. Era o sonho dela.
Roberta tinha ganho de presente de aniversário uma mesa linda de Miguel, madeira rara, e não sabia o que colocar sobre ela para enfeitá-la. Após sair do trabalho visitou várias lojas. Perdeu uma hora em uma loja de variedades escolhendo um aquário caríssimo para dar à ela colocar sobre a mesa. Lembrava-se que em uma viagem quando ainda nem tinham filhos e condição financeira estável, ela passou horas admirando peixes em um aquário superficial no Uruguai.

Chegou em casa umas duas horas antes que de costume. Reparou num casal de namorados em frente à sua casa, cochichando e rindo, naquela tarde fresca. E pensou em como o amor era belo! Sua casa era um belo sobrado na melhor região de Atibaia. Carregou o aquário, observou que a casa estava fechada, mas havia uma moto estacionada próximo a garagem, e o carro da sua esposa estava lá. Novinho em folha, presente de aniversário de casamento, que ele havia começado a pagar no mês passado. Ela raramente saía e, geralmente quando o fazia dizia a ele que era pra ir ao grupo da igreja conversar sobre obras de caridade, ou visitar seus pais em Bragança Paulista. Pensou que a moto pudesse ser de uma de suas amigas do curso de pintura que dava semanalmente. Quando ela estava pintando ficava horas absorta, e detestava ser interrompida. Abriu a porta e estranhamente o casal de namorados, que estava do outro lado da rua, soltou grunhidos abafados de risos, daqueles que para os jovens parecem ser incontroláveis, quando uma coisa muito engraçada ou perigosa está prestes a acontecer. Não havia dado maior atenção a nada disso até então.

Colocou o aquário embrulhado sobre a mesa com cuidado, queria surpreendê-la, porém não gostou da ideia de ter que fazer isso na frente das amigas dela. Nunca tinha conseguido se livrar daquela timidez ingrata. Não conseguia se exprimir com eloqüência. Tanto que seu apelido no departamento era “travado”.
Foi subindo bem devagar para espiar sua esposa pintando, quando de repente ouve sussurros, depois gritos, palavras ininteligíveis iam chegando aos seus ouvidos. Seu coração começou a disparar freneticamente, o avisando previamente do perigo. Ficou inerte na escada. Começou a sentir gotículas de suor escorrerem frias de sua testa. Não sabia o que fazer, pensou em voltar e se sentar no sofá, suas pernas agora estavam moles. Mas a curiosidade precisava ser satisfeita.

Nunca portou arma. Nunca teve vontade, contudo, ali, naquela hora, desejou com todas as forças ter uma à disposição. Não, arma não. Um tiro e o sofrimento cessa muito rápido, queria era algo cortante, torturar. Mas sua personalidade era completamente pacífica, jamais tinha tido coragem nem de bater nos seus filhos. Essa tarefa sempre coubera à Roberta, todos os filhos fugiam quando aprontavam e iam para perto dele, porque sabiam que iriam receber proteção.
Tomado de ira foi subindo um a um os degraus, ao todo eram 32, já havia contado todos. Tinha essa mania de contar, contava tudo que visse em número grande. Sabia quantos quadros sua esposa já havia pintado, todos os dias verificava a quilometragem percorrida do seu carro, sabia a distância exata em metros de sua casa até o trabalho. Guardava todas as datas, de casamentos, aniversários de amigos, parentes, tudo na ponta da língua, raramente precisava consultar a agenda de seu telefone quando sua esposa precisava de um número de amigos ou parentes.

Chegou à porta do seu quarto, seu recanto. Onde lia as obras clássicas, onde dormia e fazia amor com Roberta. Onde nas noites tempestuosas seus filhos pediam pra dormir com eles.
Agora era nítido o barulho. Completamente reconhecível. A porta estava entreaberta, e o seu micro-system tocava baixinho uma música da Madonna, romântica, que sua esposa adorava. Não conseguiu adentrar no quarto, ficou ali paralisado por uns 20 minutos. Ouvindo, observando, contraindo os dentes fortemente. Tensão gigantesca nas costas e na cabeça. Parecia que todo o peso do mundo havia desmoronado sobre ele. Espreitando não conseguia distinguir quem era o cafajeste que possuía sua esposa com tamanho ímpeto, algumas vezes até com violência. Enquanto ela urrava, pedia mais, implorava por maior vigor ainda. Gritava já sem se importar com vizinhos ou o que quer que fosse. Entre tantos e tantos uivos e desorientações ela chegou ao ápice, derrubando com uma das mãos, abajour, chaves e tudo o que se encontrava no criado mudo, até mesmo copo e garrafa de vinho.

Ele não conseguia vê-lo. Seu rosto estava parcialmente coberto antes pelas costas dela, e agora pelos cabelos, enquanto estava desmaiada e ofegante em cima dele.
Vendo-a assim parecia uma daquelas atrizes de Hollywood, que parecem não querer envelhecer, um corpo incrivelmente belo para uma mulher de 48 anos. E ainda seu rosto guardava resquícios de uma beleza ímpar. Jeito de andar e de se mover que nunca tinha visto em lugar algum. Ele tinha muito orgulho de andar com ela, sabia que a desejavam.

Ao contrário dele, havia ficado calvo. Por causa da quantidade de horas excessivas de leitura de documentos também estava com olheiras profundas. Muito acima do peso, enquanto ela parecia nunca ter dado à luz a um filho, que dirá então de quatro. Percebia que quando detinha o olhar em uma mulher, jovem ou madura, elas tratavam logo de desviar o olhar. Não tinha nem mesmo a elegância daquele Senhor que é cheio de confiança, e exala conhecimento. Sentia-se um pária, andando, se vestindo ou falando.
Precisava saber quem era. Se já houvesse descoberto certamente já teria ido embora chorar as mágoas em algum lugar bem distante dali. Mas o impulso de saber quem era o ladrão que, roubava uma das poucas coisas de valor que ainda tinha em sua vida medíocre, o impedia de sair dali. Juntou todas as forças que ainda tinha e abriu a porta, já tendo uma frase decorada pra dizer.

Sua esposa saiu de cima de André no mesmo instante com um grito de surpresa. Olhos completamente turvos de medo e estupefação. André levantando-se e preparando-se para correr agarrado aos lençóis brancos e molhados do prazer.

– Seu Jorge, eu… não… sei… o que faço aqui!
André era amigo de seu filho Miguel, ia de vez em quando junto com Miguel visitá-los nos finais de semana. Nunca percebeu nada de impróprio no rapaz, aliás achara-o muito educado, e nunca reconheceu a ninguém, devido aquele ego masculino gigantesco de jamais dizer que outro homem é bonito, ferindo sua masculinidade, mas achava-o muito bonito. Moreno, cabelos pretíssimos, olhos incrivelmente verdes, corpo de atleta, porém, sem exageros. Alto, o típico galã de novela das oito. E agora lembrava-se enquanto dirigia ao seu trabalho o quanto André e sua esposa conversavam nos churrascos, e o quanto ela sorria pra ele, preocupada se tinha comido muito ou pouco. Certa vez, havia-os surpreendido ao chegar de um jogo de futebol com seu filho. André disse que preferia ficar vendo os quadros magníficos e que já estava mesmo de saída, e recusou-se ir jogar futebol. Quando chegou viu-a ensinando-o a forma correta de segurar o pincel, tocando nas mãos dele o tempo todo e ele nas dela. Não desconfiou, afinal a diferença era gritante, e ele nunca fora ciumento. Pensou na época em como ela era atenciosa com as pessoas e em como se preocupava com todos como se fossem filhos dela.

– Você sabem sim André. Você sabe…
– Jorge foi um momento de fraqueza – disse sua esposa aos soluços e com as mãos na cabeça.
– Não se importem! Continuem o que estavam fazendo, eu só vim até aqui para pegar uma ou duas peças de roupa.
Ninguém ousou dizer mais nada, sua esposa só chorava. André se vestiu tão rápido, que assim que Jorge pegou uma camisa e uma calça o motor da motocicleta já estava roncando.

Com suas roupas enfiadas descuidadamente numa mala, Jorge ia saindo à porta quando decidiu apenas fazer uma última pergunta: – Não minta nem por um segundo Roberta, foi o primeiro? Chorando ela respondeu: – Não. Ficou completamente curioso em perguntar quantos, mas sentiu-se ainda mais desprezível com tais números. Ele virou as costas e saiu.

– Que idiota! Que imbecil! Eles mereciam uma surra no mínimo, e tudo o que ele soubera dizer era que iria pegar umas roupas e que continuassem o que estavam fazendo? Que tipo de homem faz uma coisa dessas ao flagrar sua esposa nua na sua cama com outro? Ele não era homem. Ele era um estúpido completo – Pensou Jorge.

Chegou à Prefeitura faltando dez minutos para as sete horas da manhã, como de costume. Muitos nem o notaram, como sempre. Ao chegar no seu departamento percebeu que seu superior estava de novo mudando arquivos e pastas. Reclamando que já haviam bagunçado tudo o que ele organizara no mês passado. – Ele? Pensou Jorge. Aquele projeto de ditador só mandava, nunca fazia nada. Passava o dia todo dando ordens, e infernizando a vida de todos.
– Pegue essas porcarias de arquivos, permissões e mentiras e enfie-os todos onde desejar! Vociferou Jorge explodindo, e finalmente deixando todos repararem nele. Continuou. – E se não estiver contente com meu trabalho, realize relatórios e peça minha exoneração, porque estou cansado de toda essa droga de serviço e de ter que receber ordens de um vagabundo como você!

Jorge nem esperou resposta, todos estavam abismados para falar qualquer coisa, inclusive seu superior. Ele saiu e bateu a porta com tanta força deixando todos os que estavam fora e dentro do departamento completamente assustados.
Saiu correndo, ligou seu carro. E saiu em disparada. O velocímetro apontou 170 km/h até que o carro capotasse depois de bater levemente na guia de pedestres. Jorge voou pra fora, estava sem o cinto. Bateu violentamente com a cabeça num paralelepípedo próximo de uma casa de vestidos de noiva no centro da cidade. Sua última visão foi sua mulher regozijando-se nos braços de outro. No último suspiro que deu sentiu uma única sensação: desilusão.

Todos os personagens, nomes e características constituem mera ficção.

Publicado originalmente no Recanto das Letras em: 01/03/2013

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Um comentário em “Desilusão (Republicação)

  1. Medonho, consigo imaginar a dor da traição. É por isso que já não espero mais nada de ninguém (sou até pessimista, espero o pior) Ando me preparando para possíveis decepções mas não como antes que me atingiam com toda força e me deixava chorando ou triste par todo o sempre…Eu sempre disse a mim mesma que jamais praticaria um adultério, se viesse a me apaixonar, coisa que ninguém está livre, e se fosse correspondida eu me separaria antes de qualquer envolvimento sexual. Sou honesta demais pra fazer jogo duplo e levo muito a sério o : ame o próximo como a si mesmo. Quanto a diferença de idade realmente, é ainda pior, sem chance de continuar . No caso de terem idades iguais ou quase poderia dar continuidade ,embora creio eu que amor é amor e paixão é paixão , e as paixões acabam da mesma forma que começam, num piscar de olhos kkkk O trauma do acidente e morte não permitiria também uma continuidade desse romance, salvo aos psicopatas , coisa que a meu ver sua personagem é, haja visto que não foi o primeiro. Deu pena aqui, mas só pq ele parecia ser fiel, caso contrário não sentiria pena nenhuma dele pq na maioria das vezes homens se acham no direito de trair e acham que merecem as novinhas também …

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